Desmatamento na Amazônia coloca em risco US$ 22 bi, aponta análise
Floresta, Amazônia, Acre Victor Lebre/g1 O desmatamento na Amazônia pode estar destruindo oportunidades de desenvolver medicamentos antes mesmo que a ciência co...
Floresta, Amazônia, Acre
Victor Lebre/g1
O desmatamento na Amazônia pode estar destruindo oportunidades de desenvolver medicamentos antes mesmo que a ciência consiga descobri-los. Uma análise da organização Zero Carbon Analytics estima que a perda de áreas florestais entre 2001 e 2024 colocou em risco US$ 22 bilhões em potencial comercial de futuros remédios derivados de plantas da região.
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O valor corresponde a 10,2% do potencial farmacêutico estimado para a Bacia Amazônica, que pode chegar a US$ 214,7 bilhões. O levantamento foi publicado em 2026 e considera medicamentos ainda não descobertos a partir de plantas com flores.
Os números representam projeções econômicas, e não prejuízos financeiros já concretizados. A análise busca estimar o valor das oportunidades de descoberta que podem desaparecer com a destruição da biodiversidade.
Segundo a organização, a perda de áreas florestais ameaça também compostos químicos naturais que poderiam servir de base para o desenvolvimento de novos tratamentos.
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A análise aponta que as florestas tropicais do planeta podem abrigar um potencial comercial de US$ 714 bilhões em medicamentos ainda desconhecidos.
Desse total, aproximadamente 30% estão associados à Bacia Amazônica, que concentra a maior parcela do potencial estimado entre as grandes regiões florestais avaliadas.
O desmatamento, porém, ameaça esse patrimônio natural. Em todo o mundo, a destruição das florestas tropicais desde 2001 colocou em risco cerca de US$ 86 bilhões em oportunidades comerciais de descoberta de medicamentos, segundo a Zero Carbon Analytics.
Para chegar aos resultados, a organização combinou informações sobre a diversidade de espécies vegetais com dados de perda florestal obtidos por satélite e modelos econômicos utilizados na avaliação de medicamentos.
A estimativa considera que regiões com maior riqueza de espécies podem oferecer mais oportunidades para a identificação de compostos químicos ainda desconhecidos.
A análise ressalta, no entanto, que a perda de uma área florestal não significa necessariamente o desaparecimento definitivo de todas as substâncias presentes nela. Alguns compostos podem continuar disponíveis em plantas de outras regiões.
"Ainda assim, populações de uma mesma espécie podem apresentar diferenças químicas, o que amplia a incerteza sobre o potencial perdido com a destruição da vegetação", diz Alexandre Rodrigues, biólogo especialista em biodiversidade.
Medicamentos que a ciência ainda não conhece
A importância das substâncias naturais para a medicina ajuda a explicar o tamanho do risco.
De acordo com dados científicos reunidos pela Zero Carbon Analytics, cerca de três em cada quatro medicamentos contra o câncer descobertos entre 1940 e 2014 tiveram origem em produtos naturais, foram derivados deles ou inspirados em substâncias encontradas na natureza.
Apesar dessa contribuição, a organização destaca que aproximadamente 99% dos compostos químicos produzidos pelas plantas ainda não foram explorados pela ciência.
"Isso significa que existe um amplo universo de substâncias com propriedades ainda desconhecidas, inclusive em espécies que já foram identificadas", afirma Rodrigues. "O potencial não se limita às plantas. Fungos, microrganismos e animais também produzem compostos naturais que podem contribuir para o desenvolvimento de medicamentos".
Entretanto, as estimativas econômicas apresentadas na análise consideram apenas os possíveis medicamentos derivados de plantas com flores das florestas tropicais.
Céu claro no Acre - floresta amazônica, Rio Branco
Victor Lebre/g1
Desmatamento pode ampliar perdas até 2050
Os impactos econômicos estimados podem aumentar nas próximas décadas caso o desmatamento continue.
Em um cenário que mantém o ritmo de perda florestal observado entre 2001 e 2024, a Zero Carbon Analytics calcula que outros US$ 88 bilhões em potencial comercial de medicamentos poderiam ser colocados em risco nas florestas tropicais até 2050.
Com isso, o valor acumulado desde 2001 chegaria a US$ 174 bilhões.
Por outro lado, se o desmatamento tropical fosse interrompido até 2030, seria possível preservar cerca de US$ 79 bilhões em oportunidades comerciais até 2050, em comparação com o cenário de continuidade da destruição.
Essas projeções consideram as florestas tropicais de todo o mundo, e não apenas a Amazônia.
O valor da floresta vai além do dinheiro
A organização também avaliou os possíveis benefícios dos medicamentos ainda não descobertos para a sociedade.
Segundo a análise, as florestas tropicais podem concentrar aproximadamente US$ 7 trilhões em valor social associado a futuros medicamentos.
Essa estimativa considera benefícios à saúde dos pacientes, que podem continuar mesmo depois do fim das patentes e da chegada de versões genéricas ao mercado.
Nesse cálculo, o desmatamento registrado desde 2001 teria colocado em risco cerca de US$ 860 bilhões em benefícios sociais potenciais.
Para a Zero Carbon Analytics, os resultados reforçam a importância de conservar as florestas tropicais e proteger a biodiversidade que pode contribuir para futuras descobertas médicas.
A organização também defende maior participação dos setores farmacêutico e de biotecnologia no financiamento da conservação, além de mecanismos para repartir os benefícios econômicos com povos indígenas e comunidades locais que ajudam a proteger esses ecossistemas.
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